O Colapso do Rei dos Bons Tempos: Como Vijay Mallya Fugiu com Mil Milhões de Dólares

O luxo absoluto, o poder inquestionável e os milhares de milhões de dólares envolvidos criam frequentemente uma ilusão de invencibilidade. Esta é a história de Vijay Mallya, o homem que parecia ter o mundo a seus pés, até que a sua grandiosa fortaleza desmoronou perante os olhos perplexos de todos. Dono de um vasto império, o empresário indiano vivia constantemente cercado por festas extravagantes, celebridades internacionais e uma influência global que poucos conseguiam sequer imaginar. Mallya construiu, ao longo de décadas, uma imagem imaculada de sucesso absoluto, sendo carinhosamente apelidado pelo público e pela imprensa como o “Rei dos Bons Tempos”. No entanto, por trás dos sorrisos perfeitamente ensaiados para as câmaras, das garrafas de champanhe abertas em iates de luxo e dos desfiles de moda requintados, escondiam-se dívidas gigantescas e decisões empresariais incrivelmente arriscadas que começavam a corroer as fundações do seu conglomerado. O que inicialmente parecia ser apenas a ousadia típica de um visionário dos negócios, rapidamente se transformaria num dos maiores, mais complexos e mais vergonhosos escândalos financeiros de toda a história da Índia. Culminando numa fuga espetacular que chocou o mundo inteiro, a queda de Vijay Mallya é um conto de advertência sobre os perigos da ambição desmedida, da vaidade extrema e de um sistema financeiro que permitiu que o ego de um só homem se sobrepusesse à racionalidade corporativa e ao bem-estar de milhares de trabalhadores que dependiam de si.

Vijay Mallya nasceu a 18 de dezembro de 1955 na vibrante cidade de Calcutá, na Índia, crescendo num ambiente privilegiado onde os grandes negócios não eram apenas uma profissão, mas um verdadeiro legado de sangue. Filho de Vittal Mallya, um dos industriais mais respeitados e conservadores da época, Vijay cresceu a observar de perto e com grande fascínio o funcionamento do United Breweries Group, um dos maiores e mais rentáveis conglomerados do país. Desde muito cedo, ficou perfeitamente claro para todos à sua volta que o destino daquele jovem não seria comum. Enquanto a maioria dos rapazes da sua idade ainda procurava o seu caminho e lutava para descobrir a sua verdadeira vocação, Vijay já estava a ser rigorosamente moldado para assumir, um dia, o controlo absoluto de um império que movimentava milhões de rupias diariamente. Durante a sua juventude, ele recusou-se a ser apenas um herdeiro passivo e desinteressado. Pelo contrário, acompanhava o pai em reuniões de administração intensas, absorvia as complexas decisões estratégicas de mercado e compreendia, ainda numa fase muito prematura da sua vida, o peso esmagador da responsabilidade que em breve carregaria nos seus ombros. A sua formação académica superior em comércio ajudou a estruturar e a refinar a sua visão económica, mas foi nos corredores poeirentos e nas salas de reuniões tensas da própria empresa que ele realmente aprendeu as regras implacáveis do jogo do dinheiro. O mundo corporativo indiano daquela época era ferozmente competitivo, extremamente rígido e dominado por figuras patriarcais muito experientes. E, mesmo perante este cenário intimidador, o jovem Vijay mostrava-se inabalavelmente confiante, ousado e sempre disposto a correr os riscos que os mais velhos consideravam impensáveis.

A verdadeira prova de fogo, e o momento que mudaria a sua vida para sempre, chegou no ano de 1983. A morte repentina e trágica do seu pai, Vittal Mallya, não foi apenas uma devastadora tragédia pessoal para a família; foi o início de uma transformação corporativa e radical na sua própria existência. Com apenas 28 anos de idade, Vijay Mallya viu-se forçado a assumir o comando máximo do United Breweries Group. O ceticismo instalou-se imediatamente nos mercados financeiros. Muitos duvidaram abertamente da sua capacidade de liderança. Investidores experientes, executivos seniores da própria empresa e concorrentes sedentos de sangue acreditavam firmemente que ele não teria a maturidade, a resiliência nem a visão necessárias para liderar um conglomerado daquela magnitude titânica. Afinal, aos olhos do mercado tradicional, ele era demasiado jovem, perigosamente extravagante e aparentemente muito mais interessado em desfrutar de um estilo de vida repleto de luxo do que em manter a disciplina empresarial rígida exigida. Mas foi precisamente neste momento crítico que Vijay Mallya começou a surpreender o mundo dos negócios de forma avassaladora e irrefutável. Ao assumir o controlo da United Breweries, ele não hesitou. Tomou decisões incrivelmente rápidas, cirúrgicas e, muitas vezes, profundamente impopulares entre a velha guarda da gestão. Empresas subsidiárias que não apresentavam resultados satisfatórios foram sumariamente vendidas sem qualquer tipo de apego emocional. As pesadas estruturas internas foram reorganizadas e modernizadas, livrando-se de ineficiências históricas. Ele enxugou operações redundantes e focou toda a energia do grupo naquilo que realmente gerava valor e liquidez imediata. Era uma abordagem agressiva, sem dúvida alguma, mas revelou-se brutalmente eficaz. Em poucos anos, o grupo estabilizou, recuperou a total confiança do mercado e voltou a crescer com uma força inaudita.

Foi durante este período fascinante de renovação e crescimento acelerado que Vijay Mallya começou a moldar aquilo que se tornaria a sua maior, mais valiosa e mais reconhecida assinatura no mundo corporativo: a transformação de produtos de consumo banal em verdadeiros símbolos de um estilo de vida aspiracional e desejável. A sua marca principal, a icónica cerveja Kingfisher, deixou de ser promovida como apenas mais uma bebida alcoólica refrescante disposta nas prateleiras dos supermercados locais. Sob a brilhante batuta de Mallya, a Kingfisher passou a representar algo muito maior, etéreo e intangível. Era agora intrinsecamente associada a festas intermináveis, à liberdade vibrante da juventude, ao prazer hedonista e à sofisticação cosmopolita. E ninguém, absolutamente ninguém na Índia, representava melhor essa nova imagem cintilante e atrativa do que o próprio Vijay. Ele compreendeu, de forma instintiva, algo que pouquíssimos empresários da sua época e da sua região conseguiam sequer vislumbrar: vender com sucesso não era apenas o ato mecânico e transacional de oferecer um bom produto de qualidade, mas sim a arte subtil de criar um desejo irresistível na mente dos consumidores. E ele executou essa complexa estratégia como um autêntico mestre da manipulação das massas. Ao longo de toda a década de noventa, a sua imagem pessoal começou a crescer e a fundir-se perfeitamente com os seus próprios negócios. Ele aparecia constantemente nos meios de comunicação social, sempre impecavelmente vestido com fatos desenhados à medida e invariavelmente cercado por sinais exteriores de extrema riqueza. Iates do tamanho de pequenos edifícios, frotas de carros desportivos de coleção inestimável, jatos privados de última geração e eventos sociais grandiosos passaram a ser os elementos naturais da sua rotina diária. Mas, engane-se quem pensar que aquilo era apenas vaidade pura e superficial. Era uma estratégia de marketing brilhantemente calculada. Cada aparição pública sua, cada fotografia sorridente ao lado de celebridades internacionais e cada patrocínio desportivo reforçavam o posicionamento de excelência da marca que ele estava laboriosamente a construir. A Kingfisher tornou-se numa das marcas mais poderosas, lucrativas e reconhecidas de toda a Índia, e Vijay Mallya passou a ser visto e reverenciado não apenas como um empresário astuto, mas como uma verdadeira celebridade de primeira linha. Era adorado pelas massas que compravam as suas cervejas, invejado pelos seus pares na elite e, simultaneamente, observado com extrema atenção por analistas financeiros de todo o mundo.

Which way out for Vijay Mallya? - Rediff.com

Contudo, por trás de toda essa fascinante construção de imagem e do império brilhante, pulsava um traço de personalidade que começava a tornar-se cada vez mais evidente, perigoso e incontrolável: a sua disposição inata para correr riscos cada vez maiores, insanos e vertiginosos. Ele já não se contentava apenas em manter em segurança o vasto império que herdou e consolidou; ele queria expandir-se incansavelmente, como um conquistador insaciável. Queria dominar de forma agressiva novos mercados, entrar em novos setores da economia e elevar a sua marca e o seu nome pessoal para um patamar verdadeiramente global. A ambição de Vijay Mallya parecia, pura e simplesmente, não conhecer quaisquer limites. Depois de consolidar um sucesso estrondoso e praticamente monopolista no lucrativo setor das bebidas, começou a fixar o seu olhar predador em horizontes ainda mais elevados e arriscados. Ao longo da década de noventa e do início do novo milénio, Mallya expandiu vorazmente as suas operações para uma diversidade estonteante de setores. Investiu pesadamente em indústrias farmacêuticas promissoras, na produção em massa de fertilizantes essenciais para a agricultura, no setor vibrante da tecnologia emergente e até mesmo no altamente especulativo setor imobiliário asiático. Cada novo e audacioso movimento estratégico que realizava reforçava a sua imagem pública de empresário implacável, alguém que estava sempre disposto a apostar todas as fichas, arriscando tudo para garantir um crescimento rápido e espetacular. E, durante um considerável período de tempo, parecia que existia um verdadeiro e inegável toque de Midas na sua gestão: tudo aquilo em que ele tocava transformava-se rapidamente num enorme e inquestionável sucesso financeiro.

Mas um padrão inquietante, oculto e altamente perigoso estava silenciosamente a formar-se nos bastidores do seu sucesso estrondoso. Mallya não era apenas um pensador estratégico brilhante; ele era, acima de tudo, um líder incrivelmente impulsivo e por vezes irracional nas suas apostas. Acreditava de forma quase religiosa na força magnética da sua marca comercial e na sua capacidade pessoal, quase sobre-humana, para transformar e elevar qualquer negócio medíocre a algo altamente aspiracional e valioso. E essa crença inabalável funcionou de forma perfeita, até atingir um inevitável ponto de rutura. Foi então que, no fatídico ano de 2005, impulsionado por um ego desmedido alimentado por anos consecutivos de vitórias ininterruptas, surgiu a ideia megalómana que mudaria irreversivelmente o rumo da sua história e ditaria a sua trágica ruína. Ele tomou a decisão dramática e impulsiva de entrar no setor da aviação civil, universalmente conhecido como um dos setores operacionais mais complexos, impiedosos e financeiramente arriscados de todo o mundo empresarial global. Assim nascia a Kingfisher Airlines, idealizada para ser a maior joia da sua coroa e o projeto derradeiro da sua vida. Desde o primeiro instante, a sua proposta de valor apresentada ao mercado era cristalina: esta não seria apenas mais uma companhia aérea vulgar, sem alma, para transportar pessoas de um lado para o outro. Seria uma autêntica experiência de luxo absoluto e inigualável nos céus poluídos da Índia. Enquanto as outras empresas concorrentes travavam batalhas sangrentas e destrutivas por preços baixos e ofertas de baixo custo, esmagando margens para sobreviver, Mallya queria voar exatamente na direção oposta. Queria oferecer aos seus estimados passageiros o conforto extremo, a sofisticação aristocrática e a exclusividade que o peso da sua marca assim exigia. Os seus novíssimos aviões estavam meticulosamente equipados com ecrãs individuais de entretenimento em cada assento — um luxo impensável na altura para voos domésticos —, um serviço de bordo de qualidade premium que rivalizava com restaurantes finos premiados e tripulações altamente treinadas e impecavelmente fardadas. Tudo foi minuciosamente desenhado e pensado ao pormenor para diferenciar a Kingfisher no ar e encantar os sentidos de quem voava. E, mais uma vez, ele utilizou a sua arma mais letal, persuasiva e eficiente: o marketing.

A imagem deslumbrante da Kingfisher Airlines foi cuidadosamente esculpida com o mesmo nível de detalhe e brilhantismo criativo que havia impulsionado as vendas da icónica cerveja. Propagandas incrivelmente sofisticadas e luxuosas inundavam diariamente os ecrãs de televisão e os outdoors gigantes, estando sempre associadas a uma aura de glamour exclusivo e excelência inatingível. Voar pelos céus na Kingfisher Airlines deixou muito rapidamente de ser visto pelas pessoas como um simples ato de viajar; passou a ser interpretado de forma emocional como viver, mesmo que por breves horas, o tão cobiçado estilo de vida que Mallya vendia brilhantemente nas revistas. E, nos primeiros tempos de operação, o plano parecia ser absolutamente imaculado e irrepreensível. A nova e luxuosa empresa aérea cresceu de forma exponencial e muito rápida, conquistou o seu espaço merecido no mercado altamente competitivo e chamou imediatamente a atenção apaixonada de um público indiano sedento de novos luxos. Os passageiros desdobravam-se constantemente em elogios efusivos ao serviço irrepreensível prestado pelos funcionários, a marca ganhava um prestígio incomparável no restrito mercado de aviação e Vijay Mallya parecia, de forma triunfante e mais uma vez, esfregar na cara pálida dos seus críticos que a sua visão singular estava, inquestionavelmente, muitos anos à frente do seu tempo. No entanto, escondida por trás das sumptuosas cortinas de veludo carmesim e dos tapetes vermelhos estendidos à entrada dos aviões, a realidade económica interna era severamente diferente, extremamente sombria e prestes a desmoronar por completo. O setor aéreo na vasta Índia era, e ainda continua a ser, um ecossistema incrivelmente desafiador, hostil e imperdoável para falhas. Os custos operacionais diários eram asfixiantes e diuturnamente altos, o preço do combustível de aviação sofria variações externas constantes e brutais que destruíam qualquer planeamento, e as margens reais de lucro, mesmo em tempos de expansão económica e de aviões cheios, eram dolorosamente curtas. Para agravar fatalmente esta situação já por si delicada, o mercado de consumidores indianos era estruturalmente sensível e inteiramente condicionado pelo fator preço. A esmagadora maioria dos passageiros que lotavam os aeroportos viajava apenas em busca da pura economia, ignorando o luxo por completo se tal representasse pagar mais, o que originava um profundo, direto e insolúvel conflito de interesses com o modelo altamente luxuoso, e incrivelmente dispendioso, de Mallya.

Mesmo perante este cenário claramente adverso, hostil e que prenunciava um desastre económico iminente, a arrogância teimosa de Mallya falou surpreendentemente mais alto. Ele decidiu, contra todos os avisos dos analistas, acelerar ainda mais o seu projeto de expansão, recusando-se veementemente a admitir a mais pequena derrota ou a ajustar humildemente a sua rota para evitar a colisão. Em 2007, impulsionado por um desejo voraz e cego de dominação de mercado e crescimento absoluto, tomou uma decisão que praticamente todos os especialistas financeiros de renome consideraram abertamente suicida: adquiriu, de forma precipitada e megalómana, a Air Deccan, uma vasta e conhecida companhia aérea focada exclusivamente no segmento de baixo custo. A teoria académica e otimista que sustentava este milionário negócio era tentar expandir muito rapidamente a sua presença territorial, monopolizar instantaneamente o mercado doméstico e aniquilar a feroz concorrência de uma vez por todas, atuando em simultâneo e em força em todos os segmentos possíveis. Mas, na prática dura, fria e cruel da realidade corporativa e do dia a dia, aquilo gerou instantaneamente um monstro administrativo incontrolável. A Kingfisher Airlines original representava, na sua mais profunda essência, o luxo mais puro e elitista; a recém-adquirida Air Deccan, por seu triste turno, representava a economia extrema e uma política implacável de redução de custos. Colocar de forma atabalhoada estas duas identidades operacionais e culturais — que eram visceral e diametralmente opostas nas suas filosofias base — debaixo do mesmo teto financeiro e da mesma equipa de gestão, foi um erro colossal e irremediável, possivelmente o mais desastroso de toda a sua longa carreira. A integração estrutural das equipas e das rotas foi terrivelmente confusa, a complexa gestão diária das operações tornou-se exponencialmente mais caótica, tensa e desorientada, e os custos variáveis, que já eram motivo de alarme e insustentavelmente elevados, começaram a disparar vertiginosamente para níveis que ameaçavam a própria sobrevivência da matriz do grupo. Em vez de consolidar inteligentemente o seu poder no ar e de simplificar a operação global para gerar poupanças de escala, a infame fusão de empresas criou um sistema corporativo labiríntico, paralisante e virtualmente impossível de controlar, com importantes decisões estratégicas a serem tomadas num vazio de bom senso e completamente desalinhadas da dura realidade do mercado. E, pela primeira e mais dolorosa vez em toda a sua cintilante carreira pública, começaram a transparecer perante o mundo sinais evidentes, alarmantes e impossíveis de esconder, provando que algo estava, sem sombra de dúvida, seriamente doente. As outrora secretas dívidas começaram a avolumar-se assustadoramente e a crescer de forma contínua e alarmante. Nos primeiros e incertos tempos desta crise velada, tratavam-se apenas de números que os contabilistas asseguravam ser perfeitamente administráveis com injeções de capital. Contudo, muito rapidamente, os prejuízos passaram a ser o motivo de preocupação extrema, causando noites sem dormir nos tensos corredores do poder administrativo e bancário. Pouco a pouco, sob a aparente calma da opulência exibida nas revistas, os rombos transformaram-se num buraco negro financeiro gigantesco e incontrolável, que ameaçava devorar tudo e todos à sua volta, consumindo implacavelmente milhões num espaço de poucas horas.

Para conseguir manter de pé a farsa glamorosa e tentar sustentar uma pesada operação aeronáutica que estava visível e abertamente a sangrar quantidades absurdas de dinheiro vivo a cada dia que passava, Vijay Mallya, acossado pelo desespero e pela negação, recorreu de forma sistemática a inúmeros, contínuos e volumosos empréstimos bancários. Grandes e prestigiadas instituições financeiras tradicionais, muitas delas de relevo nacional e com os seus capitais totalmente detidos e apoiados pelo Estado indiano, continuavam a acreditar cegamente nas maravilhas do seu histórico imaculado de sucesso empresarial e no seu inegável carisma pessoal que encantava até os mais gélidos banqueiros. Afinal de contas, segundo o raciocínio vigente na alta roda do crédito corporativo, este era o homem excecional que já havia provado a sua notável capacidade de contornar crises profundas e de recuperar negócios estagnados no passado. Contudo, desta terrível vez, as regras fundamentais do jogo económico e da sustentabilidade financeira eram muito diferentes, e o cenário global desenhava-se de uma forma quase apocalíptica para os interesses da empresa e do magnata. A venerada Kingfisher Airlines teimava em continuar a gastar de forma desregrada e irresponsável quantidades puramente obscenas de dinheiro, voando para destinos inviáveis e queimando combustível precioso em rotas que apresentavam taxas de ocupação miseráveis. As perdas eram incomensuravelmente maiores, e de forma trágica, muito superiores a qualquer valor que a empresa alguma vez conseguisse ambicionar arrecadar validamente em receitas provindas das limitadas vendas de bilhetes de avião. E, de forma cada vez mais chocante e assustadora para quem observava de fora a ruína do império, mesmo perante todos os intensos, barulhentos e óbvios sinais de perigo iminente e de todas as luzes vermelhas e estidentes de falência que piscavam freneticamente no seu painel principal de controlo, o teimoso Mallya recusava-se, com uma veemência inabalável, a desacelerar a sua dramática queda no abismo. O líder encurralado, outrora o mestre estratego incontestável, continuava a agir como se fosse ainda o inquestionável “Rei”, mantendo a sua máscara inalterada de confiança cega. Ele ordenava que se continuasse a investir de forma totalmente imprudente, mandava expandir e operar agressivamente em novas rotas que, matematicamente, já davam e continuariam sempre a dar enormes prejuízos na operação. Para espanto dos investidores e da sua própria equipa, apostava todas as suas derradeiras esperanças, sem base em qualquer documento ou estratégia fiável, na remota hipótese de que, através de algum inexplicável milagre macroeconómico, ou de um providencial ajuste cósmico do cruel destino, as contas negativas acabassem por se equilibrar milagrosa e automaticamente a longo prazo. Mas esse tão desesperadamente esperado e divino momento de salvação total e misericordiosa nunca chegou a descer dos céus para se materializar.

O que, ainda não há muito tempo, era benevolentemente visto e interpretado pela otimista opinião pública e por analistas apaixonados como apenas mais um risco perfeitamente calculado de um génio dos negócios, começou rapidamente a transfigurar-se e a desmascarar-se num desastre total, sombrio e completamente iminente. A cada dia que passava sem salvação à vista, o peso insuportável arrastava a famosa e adorada companhia aérea e toda a sua brilhante aura de luxo sem fim em direção a um abismo económico frio, desolador e sem possível retorno. As insustentáveis e temíveis dívidas acumuladas durante anos de extravagância cresciam agora a um ritmo puramente desenfreado, avassalador e impossível de estancar, com dezenas e centenas de milhões de suadas rupias, provenientes essencialmente dos esforços da economia da Índia, a transformarem-se muito rapidamente num abismo com sombrias cifras multibilionárias e aterradoramente assustadoras para os atónitos credores. Empréstimos novos e urgentes eram freneticamente e diuturnamente contraídos pela desesperada e encurralada equipa de gestão e administração, não para, como de costume num cenário normal, fazer mais investimentos construtivos, estruturantes ou para modernizar a desgastada frota, mas pura e simplesmente apenas para tentar conseguir cobrir superficialmente e de forma provisória os enormes e constantes prejuízos que já jorravam a jorros de todas as caóticas operações anteriores, originando e alimentando um voraz e monstruoso buraco financeiro, criando de imediato um devastador efeito cascata que destruía rápida e implacavelmente toda e qualquer pequena réstia ou ténue esperança de uma possível, mesmo que difícil, salvação, manutenção da empresa e recuperação da gigante e prestigiada marca asiática.

India tycoon Vijay Mallya guilty of contempt - BBC News

Apesar de toda esta esmagadora e brutal tempestade económica implacável que, dia após dia, sem dar quaisquer tréguas ou mostrar qualquer sinal de abrandamento, se abatia ferozmente sobre todos os seus fragilizados negócios e sobre o seu império outrora imaculado e temido, Vijay Mallya persistia obstinadamente na sua delirante ilusão de grandeza. Em público e perante as massas atónitas, ele continuava e fazia questão de manter o seu espetáculo de opulência indescritível e inigualável. Fazia deslumbrantes aparições recheadas e profundamente marcadas por uma postura incrivelmente soberba, sobranceira e arrogantemente confiante, distribuindo com um ar plácido entrevistas encenadas aos principais canais e meios de comunicação, transmitindo com um elevado e chocante grau de cinismo uma imagem completamente deturpada de que a falência era uma ficção inventada pelos media, com o intuito de fingir para os investidores crédulos que tudo, desde o primeiro dia de crise, estava perfeitamente sob controlo rigoroso e planeado. Mas, no mundo muito real e insensivelmente frio dos negócios quotidianos, nos estaleiros poeirentos, nas fábricas, e na dureza implacável e realística que se escondia longe dos jatos e longe dos sorrisos brilhantes, os assustados e furiosos fornecedores de serviços vitais, tais como empresas de combustível para aviação, manutenção de aparelhos críticos, catering fino aéreo e outros serviços imprescindíveis ao funcionamento da complexa e delicada operação, começaram não só a exigir mas a bloquear de imediato todos os serviços, reclamando freneticamente todos os pagamentos pendentes, cujas faturas pesadas, já carimbadas, estavam tragicamente e injustificadamente em atraso há longos meses de agonia e de promessas falsas de Mallya.

Muito mais grave, triste, revoltante e avassalador do que apenas as gigantescas contas por pagar a poderosos bancos estatais corporativos com reservas enormes de capital para resistirem ao embate brutal desta queda monstruosa e vertiginosa de um império desmoronado pelo excesso de megalomania e ego, foram indubitavelmente os dramas das pessoas reais que trabalhavam todos os dias, as quais a tragédia acabou por atingir profunda, cruel e injustamente no seio das suas simples, honradas e modestas existências, virando-lhes as fracas economias e a estabilidade das famílias, já muito vulneráveis ao contexto diário, tragicamente, dolorosamente e desoladoramente do avesso. Os dedicados, fardados, leais e muito honrados colaboradores, operários qualificados, hospedeiras de bordo irrepreensíveis e todos os dedicados trabalhadores incansáveis, até aí super orgulhosos, da glamourosa empresa de aviação civil de Vijay, passaram da opulência a enfrentar, de um terrível e humilhante dia para o outro sem aviso, uma profunda e dolorosa miséria económica, ficando meses e dolorosos meses a fio e repetidos sem sequer receberem no final do mês, os seus justos e tão duros ganhos. E enquanto os trabalhadores e os seus familiares choravam de raiva, em marchas dolorosas, empunhando desesperadamente cartazes rasgados nas praças das frias ruas indianas a suplicar pelos justos direitos e a gritar, a desespero por sustento básico que o magnata recusa-se a dar, o indescritivelmente egoísta patrão bilionário indiano exibia à população revoltada nas redes e jornais o seu absoluto desprezo e alheamento pela miséria humana que originara com a sua ambição desmedida, dando contínuas, escandalosas e gigantescas festas de arromba, vivendo sumptuosamente rodeado de um luxo absolutamente repulsivo em total oposição ao sangue dos funcionários arruinados pela falta da sua verba. E a terrível humilhação das falhas sociais de um estado complacente foi inevitável para todos. As autoridades da Índia começaram, muito e demasiado tarde e a reboque da gigantesca impopularidade política desta ostentação impune do poderoso perante a miséria popular provocada e alastrada à praça, a tentar desesperadamente apurar todos os contornos da impressionante fraude financeira. Mas em Março de 2016, Vijay fugiu para o refúgio britânico com todos os segredos perante o olhar inerte das autoridades no aeroporto, sendo até à data um procurado fugitivo multimilionário indiano escondido num exílio de ouro londrino de 10 milhões rodeado de defesas jurídicas sofisticadas do melhor que os escritórios ingleses têm para um milionário encurralado, que prova que os colapsos morais mais perigosos não se dão com a perda inevitável de milhões perdidos mas pela ausência vergonhosa da menor vergonha perante a impunidade face aos trabalhadores desesperados por um pagamento não exigido pela lei e as vítimas não indemnizadas pela destruição alheia causada por apenas um ser.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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