O Erro de Zezé Di Camargo e o Acaso que Criou o Maior Sucesso de Chitãozinho e Chororó
Existem canções que parecem ter nascido com um propósito divino, melodias que atravessam gerações e se instalam no imaginário coletivo de forma tão profunda que é impossível imaginar o mundo sem elas. No vasto e riquíssimo universo da música cantada em língua portuguesa, poucos temas alcançaram o estatuto de hino imortal como a canção “Sinônimos”. A combinação arrebatadora das vozes cristalinas e afinadas da dupla sertaneja Chitãozinho e Chororó com o timbre ancestral, místico e inconfundível de Zé Ramalho criou uma daquelas parcerias que fazem a história da música parar para escutar. “Ninguém sabe dizer onde a felicidade está…” — bastam estes primeiros acordes e versos para que qualquer pessoa seja imediatamente transportada para um lugar de profunda emoção e nostalgia. É um clássico absoluto, uma daquelas raras joias musicais que transcende géneros, idades e fronteiras sociais. No entanto, o que a esmagadora maioria do público desconhece em absoluto é que esta colaboração épica, que uniu o romantismo popular à profundidade poética, esteve a um mero triz de nunca chegar a acontecer. Na verdade, por detrás deste sucesso estrondoso, esconde-se uma história fascinante de acasos, erros de cálculo, adiamentos fatais e uma audácia de última hora que reescreveu para sempre o rumo da música popular.

Para compreendermos a magnitude deste acaso histórico, precisamos de recuar até ao momento da génese da canção. “Sinônimos” não foi uma obra planeada num escritório corporativo por executivos engravatados, mas sim o fruto de um momento de pura inspiração descontraída. A composição nasceu da mente criativa de Cláudio Noam e do seu parceiro de produção, que colaboravam há longos anos no meio musical. A magia aconteceu de forma muito simples: um convite para irem a uma casa no Jardim São Bento, um ambiente tranquilo, umas cervejas, uns petiscos e a vontade de deixar a criatividade fluir solta ao som do violão. Cláudio Noam já trazia um fragmento da ideia, um esboço melódico e lírico que continha em si uma alma grandiosa. À medida que iam atirando ideias de um lado para o outro — “um joga para cá, outro joga para lá”, como é tão típico no processo orgânico de composição —, a música foi ganhando corpo, estrutura e uma densidade emocional rara. Desde o primeiro momento em que a canção ficou concluída, os seus criadores souberam, com aquela intuição visceral que apenas os grandes artistas possuem, que tinham nas mãos algo verdadeiramente excecional. Contudo, o destino que eles haviam imaginado para aquela melodia era radicalmente diferente daquele que todos nós conhecemos hoje.
A música foi desenhada, pensada e estruturada desde o primeiro minuto para ser cantada pelo ídolo máximo do sertanejo romântico daquela época, Zezé Di Camargo, em dueto com o mestre do misticismo nordestino, Zé Ramalho. A ideia era criar um encontro de titãs que pararia o Brasil inteiro e ecoaria por toda a lusofonia. A canção tinha a métrica perfeita para a voz apaixonada de Zezé e a gravidade necessária para o timbre inigualável de Zé Ramalho. O convite para a participação de Zé Ramalho já estava, inclusive, delineado e no radar dos compositores e produtores. Com a confiança de quem tem um trunfo imbatível na manga, a equipa apresentou a maqueta de “Sinônimos” a Zezé Di Camargo. Zezé, que possui um dos ouvidos mais apurados da indústria fonográfica, percebeu imediatamente o poder avassalador daquela faixa. Ele adorou a canção. No entanto, a indústria musical é uma máquina implacável, movida a prazos, agendas apertadíssimas e planeamentos rígidos.
Quando a música lhe foi apresentada, Zezé Di Camargo e o seu irmão Luciano encontravam-se numa fase crucial do seu processo de produção: o disco novo já estava completamente fechado e encontrava-se na fase final de mistura. Zezé, confrontado com a pressão do calendário e a impossibilidade logística de reabrir o alinhamento do álbum à última da hora, tomou uma decisão que o assombraria profissionalmente. “Gente, não dá para tirar nenhuma e colocar agora. Estamos muito em cima da hora,” explicou o cantor aos compositores, visivelmente agradado com o tema mas preso pelas amarras do planeamento. A sua solução pareceu lógica e prudente na altura: “Guardem para o ano que vem. O ano que vem nós gravamos essa música.” Foi um erro de cálculo monumental. No mundo vertiginoso da música, um ano é uma eternidade. As grandes canções têm uma energia própria, uma urgência de nascer e de serem ouvidas, e “Sinônimos” não estava disposta a ficar a ganhar pó numa gaveta de estúdio à espera que o calendário de Zezé Di Camargo se libertasse. Ao adiar o projeto, Zezé ficou literalmente a ver navios, deixando a porta escancarada para que o acaso entrasse em cena e mudasse o curso da história.
Foi exatamente neste interregno de incerteza que a música “atravessou a rua”, figurativamente falando, e foi parar aos ouvidos da concorrência. Chitãozinho e Chororó, uma das duplas mais respeitadas e icónicas do panorama musical, estavam a preparar um novo projeto e precisavam de repertório fresco. O produtor de longa data da dupla, que também estava envolvido na conceção de “Sinônimos”, levou consigo um CD de demonstração que continha nove faixas inéditas para mostrar aos artistas no estúdio. O ambiente era de trabalho árduo, de procura por aquele tema especial que pudesse alavancar o novo álbum. Puseram o CD a tocar, faixa após faixa, analisando meticulosamente cada melodia, cada verso, cada potencial sucesso.
Quando chegou a vez da faixa que continha “Sinônimos”, instalou-se um momento de enorme tensão cómica e dramática no estúdio. O compositor e produtor, ciente de que aquela música tinha sido prometida e idealizada para Zezé Di Camargo e para Zé Ramalho, tentou encobrir o seu próprio tesouro. Dirigindo-se a quem operava o leitor de CDs, lançou a indicação de forma displicente: “Essa daí pula, que não tem nada a ver com o Chitãozinho e Chororó.” Ele tentou, literalmente, saltar a faixa para manter o pacto tácito que tinha feito com Zezé de guardar o tema para o ano seguinte. Mas não se pode esconder o talento nem o brilho de um diamante debaixo de um tapete. Chitãozinho, conhecido pelo seu faro aguçadíssimo para detetar sucessos instantâneos, interveio imediatamente. Percebendo a manobra defensiva do produtor, Chitãozinho confrontou-o com uma frontalidade desconcertante: “Estás a esconder o leite? É música do Zezé, que vais dar para o Zezé Di Camargo, e queres esconder de nós?” O produtor, encurralado pela perspicácia do artista, confessou a verdade: “Não, velho. É uma música que nós fizemos para o Zé Ramalho. Não tem nada a ver com o Chitãozinho e Chororó.”
Foi nesse preciso instante que se deu a reviravolta épica. Chitãozinho, ignorando solenemente os planos originais, as reservas do produtor e a adequação teórica do tema ao seu estilo habitual, bateu o pé com uma determinação inabalável. Com a autoridade de quem sabe exatamente o que o público quer ouvir, proferiu a sentença final que mudaria as suas carreiras: “Pois nós vamos gravar esta aqui.” A teimosia audaz de Chitãozinho prevaleceu. A canção era simplesmente perfeita demais para ser ignorada ou deixada para trás. Contudo, havia um detalhe fundamental que não podia ser descartado: a música precisava daquela voz ancestral, daquela alma telúrica e profunda que apenas Zé Ramalho conseguia imprimir. O produtor avisou que já tinha falado com o empresário de Zé Ramalho e que este estava à espera da música. A resposta da dupla foi magistral na sua simplicidade e inteligência estratégica: “Então nós vamos convidar o Zé para participar connosco na música.”
O contacto foi estabelecido. Ligaram para Zé Ramalho, explicaram-lhe a nova configuração do projeto e ele, percebendo a grandiosidade da obra, não hesitou por um segundo. Topou imediatamente, viajou para o estúdio e gravaram a música. A química que se gerou naquele estúdio entre as vozes agudas, cristalinas e perfeitamente harmonizadas de Chitãozinho e Chororó e o registo grave, rouco e poético de Zé Ramalho foi algo de verdadeiramente absurdo e transcendente. A simbiose foi tão perfeita, o encaixe tão milimétrico, que para qualquer pessoa que ouça a canção hoje em dia, parece que a música foi escrita específica e exclusivamente para eles os três. A gravação original tornou-se um marco indiscutível, transformando-se de imediato num dos maiores estrondos comerciais e artísticos da década. O destino havia trocado Zezé Di Camargo por Chitãozinho e Chororó de forma impiedosa, mas os resultados provaram que os deuses da música sabiam exatamente o que estavam a fazer.
O impacto de “Sinônimos” nas tabelas de vendas, nas rádios e no coração do público foi avassalador, assumindo contornos de um verdadeiro fenómeno sociológico. A canção foi escolhida para integrar a banda sonora da telenovela “A Escrava Isaura”, uma superprodução de enorme sucesso que catapultou a música para todos os lares diariamente. Estourou de norte a sul, dominando as ondas hertzianas e tornando-se um hino obrigatório em qualquer concerto, festival ou rádio. Mas o verdadeiro atestado do poder incontrolável desta música reflete-se num dado estatístico absolutamente surreal e inédito na história da televisão e da música: “Sinônimos” fez parte da banda sonora de nada mais, nada menos, do que cinco telenovelas diferentes. É um feito nunca antes visto, uma demonstração de força que desafia qualquer lógica da indústria do entretenimento.
A certa altura daquele período de loucura, a situação atingiu contornos tão bizarros que a mesma música estava a ser transmitida em duas telenovelas em simultâneo, em canais concorrentes. Havia uma novela no SBT e outra na TV Globo, ambas a usarem a mesma canção, passando ao mesmo tempo, num fenómeno de saturação positiva e de domínio absoluto das audiências que deixou os executivos da televisão de boca aberta. O assédio por parte das produtoras de televisão para incluírem a canção nas suas obras era de tal forma intenso e voraz que a própria equipa responsável pelos direitos da música teve de intervir para travar a loucura e proteger a integridade da obra. Quando chegou o pedido para autorizar a inclusão de “Sinônimos” numa sexta produção, uma minissérie de grande orçamento, a resposta foi um rotundo “Não”. A justificação foi clara e denota uma enorme sabedoria de gestão de carreira: “Não, está a desgastar muito a música. Vamos segurar por aí, não vou autorizar.” O bom senso imperou, percebendo que até mesmo uma obra de arte sublime precisa de respirar e não pode ser banalizada pela exaustão mediática.
Hoje, ao olharmos para trás, é absolutamente fascinante e perturbador realizar um exercício de imaginação e pensar em como um pequeno detalhe temporal alterou o panorama musical. Como teria sido “Sinônimos” na voz de Zezé Di Camargo? Certamente teria sido um sucesso tremendo, dada a qualidade intrínseca da composição e o imenso talento vocal de Zezé. Teria, sem dúvida, uma sonoridade mais vincadamente romântica, talvez mais suave, enquadrada na estética perfeitamente oleada da dupla com Luciano. No entanto, seria um sucesso ainda maior do que aquele que se veio a verificar? É muito difícil de acreditar. A combinação inusitada, quase anómala, de Chitãozinho e Chororó com Zé Ramalho trouxe uma textura, uma gravidade e uma abrangência demográfica que dificilmente seria alcançada noutra configuração. Foi a união do campo com a poesia urbana, do romantismo desbragado com o existencialismo místico.
No final de contas, a história de “Sinônimos” é uma lição magistral sobre a imprevisibilidade do sucesso, sobre a importância do chamado “timing” e, acima de tudo, sobre como as grandes obras de arte acabam sempre por encontrar o seu caminho certo, o seu intérprete definitivo e o seu lugar de destaque na eternidade. Zezé Di Camargo perdeu a oportunidade de uma vida por causa de um disco já misturado, mas a música em si não perdeu rigorosamente nada. Pelo contrário, ganhou uma nova dimensão, uma roupagem épica e uma vida longa que perdurará muito para além do tempo dos seus criadores e intérpretes. O destino, com a sua habitual ironia e sabedoria, trocou as voltas a todos e entregou-nos uma obra-prima inesquecível, provando que, no mundo da música, tal como no amor que a canção tão bem descreve, ninguém sabe verdadeiramente onde a felicidade está, mas todos a reconhecem imediatamente mal soam os primeiros acordes.