O Óscar Roubado, a Solidão Dourada e o Peso de Uma Nação: A Verdadeira Face de Fernanda Montenegro

A noite fria de vinte e um de março de mil novecentos e noventa e nove estava destinada a ser um daqueles momentos que param o relógio da história. Em Los Angeles, no imponente Dorothy Chandler Pavilion, Whoopi Goldberg dominava o palco enquanto mais de quarenta e seis milhões de cidadãos norte-americanos acompanhavam a cerimónia através da emissão da cadeia ABC. Contudo, era do outro lado do hemisfério, no coração do Brasil, que a verdadeira tensão se fazia sentir. O país inteiro recusou-se a dormir. Bares abriram portas de madrugada, famílias inteiras espremeram-se nos sofás das suas salas de estar, e bandeiras nacionais foram orgulhosamente penduradas nas janelas dos prédios, num ambiente de fervor habitualmente reservado para as grandes finais de um Campeonato do Mundo de futebol. O motivo de tamanha comoção era de uma magnitude cultural ímpar: pela primeiríssima vez na longa e elitista história da Academia, uma atriz brasileira, falando a doce língua portuguesa no grande ecrã, disputava o tão cobiçado Óscar de Melhor Atriz.

Ela já tinha aterrado em Los Angeles com o peso de ser a favorita moral de todo o globo. Tinha conquistado o Urso de Ouro e o Urso de Prata no prestigiado Festival de Berlim, tinha levado para casa o Globo de Ouro, e a temível crítica norte-americana encontrava-se, literalmente, rendida aos seus pés. O seu nome, que ecoava nos corredores de Hollywood, era Fernanda Montenegro. No entanto, o desfecho dessa noite foi um golpe brutal: ela não ganhou. O prémio escapou-lhe por entre os dedos e o povo brasileiro, ferido no seu orgulho mais profundo, nunca perdoou essa afronta. Hoje, mais de vinte e sete anos após aquele episódio trágico para a cultura lusófona, a mesma mulher vive a sua velhice de forma solitária num apartamento avaliado em mais de trinta milhões de reais, estrategicamente posicionado de frente para a deslumbrante vastidão do mar de Ipanema. As paredes da sua residência estão forradas de livros que se estendem do chão até ao teto, ladeados por quadros e flores vibrantes. Entre poltronas estampadas que ainda parecem guardar a forma e o calor de um marido que partiu há quase duas décadas, Fernanda Montenegro, aos noventa e seis anos de idade, ergue-se como o maior e mais precioso tesouro cultural vivo da nação brasileira. Porém, a sua narrativa não se esgota num prémio que a indústria lhe negou. A verdadeira substância da sua vida reside naquilo que se seguiu: os beijos no ecrã que escandalizaram uma sociedade conservadora, os discursos inflamados que a transformaram no alvo e na inimiga pública de um governo, as cruéis notícias falsas que anunciaram a sua morte por puro sadismo enquanto ela ainda respirava, e a profunda, cortante solidão de quem sobrevive cercada de memórias no interior de um dos endereços mais caros do planeta.

Para compreender a verdadeira essência desta lenda indomável, é imperativo recuar no tempo, muito antes do glamour ilusório dos Óscares. Antes de se transformar na imponente Fernanda Montenegro, ela era apenas Arlete. Arlete Pinheiro Esteves da Silva veio ao mundo no dia dezasseis de outubro de mil novecentos e vinte e nove, numa humilde ruela chamada Rua Alaí, situada em Campinho, um modesto subúrbio operário do Rio de Janeiro. Nasceu no seio de uma família de parcos recursos; o seu pai, Vitorino, era um mecânico com raízes portuguesas, e a sua mãe, Carmen, uma dedicada dona de casa filha de imigrantes italianos originários da Sardenha. O nascimento ocorreu numa casa simples, com o auxílio de uma parteira local, num bairro onde o suor do trabalho duro era a única moeda de troca. Arlete era a mais velha de três irmãs – Aida e Áura eram as outras duas, todas batizadas com nomes iniciados pela letra “A”, num capricho peculiar do patriarca da família. Naquele modesto lar, o conceito de património garantido era uma miragem inatingível. Uma doença inesperada, uma crise passageira no emprego do pai, e as contas do final do mês pura e simplesmente não fechavam. Foi exatamente neste ambiente de incerteza constante que nasceu um pavor silencioso e avassalador que Fernanda Montenegro carrega nos ombros até aos dias de hoje. A sua filha, a também talentosa atriz Fernanda Torres, revelou numa entrevista reveladora que a mãe sempre confessou estar psicologicamente preparada para viver num espaço minúsculo e que, ao longo de toda a sua vida, sentiu a necessidade imperiosa de ter, pelo menos, três meses de sustento financeiro estritamente garantidos. Mesmo após décadas ininterruptas de um sucesso estrondoso e de cachets milionários, o medo fantasmagórico da ruína financeira nunca a abandonou. Isto porque o medo da ruína não é um privilégio de quem perdeu fortunas; é a cicatriz incurável daqueles que, durante a infância, nunca tiveram nada.

Foi precisamente para escapar a essa condenação da pobreza que Arlete se dedicou intensamente aos estudos, tirando cursos de secretariado, línguas como o inglês e o francês, estenografia e datilografia. Procurava afincadamente um caminho direto e seguro para um emprego fixo, uma vida estável e isenta de sobressaltos indesejados. Contudo, o destino encarregou-se de lhe trocar as voltas. Aos quinze anos, numa lufada de audácia juvenil, inscreveu-se num concurso para locutora na prestigiada rádio MEC e, contra todas as probabilidades, saiu vencedora. Permaneceu nessa estação durante uma década, exercendo as funções de locutora, atriz de rádio e redatora criativa. Anos mais tarde, referir-se-ia a essa experiência radiofónica como “a universidade que nunca tive a oportunidade de frequentar”. Foi também nos corredores abafados dessa rádio que Arlete inventou, do nada, a persona de Fernanda Montenegro. Necessitava urgentemente de um nome artístico sonante para assinar os intrincados guiões que escrevia incansavelmente. Optou por “Fernanda”, um nome que lhe soava forte, aguerrido e imponente, e juntou-lhe “Montenegro”, que carregava um inegável peso de nobreza e distinção. A jovem rapariga de Campinho, filha de um simples mecânico sem posses, forjou para si mesma uma identidade que parecia pertencer a um estrato social superior. Em mil novecentos e cinquenta, deu o grande salto, estreando-se no teatro profissional nos imponentes palcos do Copacabana Palace. No elenco dessa peça figurava um jovem ator promissor chamado Fernando Torres. Bastaram dois anos para que os dois trocassem alianças e selassem os seus destinos. Ficariam inseparáveis durante cinquenta e seis longos anos, unidos pela arte e pelo amor, até que a morte de Fernando os separou fisicamente no ano de dois mil e oito. Na década de cinquenta, a pioneira TV Tupi contratou Fernanda como a sua primeiríssima atriz fixa. Eram tempos de teleteatros emitidos rigorosamente em direto, sem o auxílio de teleponto e, acima de tudo, sem margem para segundas tentativas. Se um ator se equivocasse nas falas, o Brasil inteiro testemunhava o erro em tempo real. Sob esta pressão esmagadora, e em menos de uma década de trabalho árduo, Arlete desapareceu por completo da consciência pública. No seu lugar, ergueu-se o monólito cultural chamado Fernanda Montenegro. Uma carreira construída a pulso, cimentada a partir do grau zero absoluto, desprovida de apelidos influentes, de heranças avultadas ou de qualquer rede de proteção familiar burguesa.

Fernanda Montenegro emociona com Simone de Beauvoir - 18/08/2024 -  Ilustrada - Folha

No entanto, o papel que a catapultaria para a estratosfera da fama mundial foi o de uma mulher amarga, calejada pela vida, que ganhava parcos trocos a escrever cartas para analfabetos na ruidosa Estação Central do Brasil. Foi esta obra-prima do cinema, que partilha o nome com a icónica estação ferroviária, realizada pelo talentoso Walter Salles em mil novecentos e noventa e oito, que transformou a atriz num ícone reverenciado à escala global e a colocou a milímetros do prémio máximo de Hollywood. “Central do Brasil” era uma produção com um orçamento incrivelmente modesto que, subitamente, começou a conquistar o mundo: arrecadou distinções em Berlim, dominou os Globos de Ouro e colecionou galardões da severa crítica norte-americana. A indicação para o Óscar de Melhor Atriz foi apenas a consequência lógica e natural. O Brasil uniu-se na crença inabalável de que a vitória estava assegurada. Mas o que o povo brasileiro desconhecia na sua inocência era que a violenta disputa de bastidores já estava viciada e decidida muito antes de a cerimónia sequer ter início. No canto oposto do ringue cinematográfico encontrava-se o todo-poderoso Harvey Weinstein, na altura copresidente da influente Miramax e indiscutivelmente o homem mais letal e maquiavélico da indústria de Hollywood. Weinstein não tratava a corrida aos Óscares como uma nobre celebração da excelência artística; para ele, tratava-se de uma suja e impiedosa campanha política. Organizava exibições privadas hiper-exclusivas para os influentes membros da Academia, comprava páginas inteiras de publicidade agressiva nos principais jornais especializados da indústria e orquestrava campanhas de difamação cirúrgicas e sussurradas para destruir a reputação de obras concorrentes, como fez com “O Resgate do Soldado Ryan” de Steven Spielberg. A Miramax despejava orçamentos absurdos que variavam entre os cinco e os quinze milhões de dólares apenas na promoção dos seus filmes. Por outro lado, a humilde Sony Pictures Classics, responsável pela distribuição de “Central do Brasil”, limitava-se a promover tímidas sessões discretas para críticos de nicho, confiando de forma quase ingénua no impacto do “boca a boca”. Era, na mais pura das essências, o eterno combate desigual entre David e Golias. Mas, nesta versão desapiedada da história, o gigante Golias esmagou o oponente sem misericórdia.

O relógio marcava a noite de vinte e um de março de mil novecentos e noventa e nove quando o carismático ator Jack Nicholson abriu o fatídico envelope dourado e, com a sua voz inconfundível, leu o nome de Gwyneth Paltrow. No Brasil, instalou-se um silêncio tumular. Os veteranos comentadores da Rede Globo balbuciavam em direto, visivelmente atordoados e tentando desesperadamente encontrar palavras para reagir a tamanha injustiça. Nos cortes de câmara fornecidos pela realização americana, o rosto de Fernanda Montenegro surgiu no ecrã. Estava perfeitamente sereno, iluminado por um sorriso contido, enquanto as suas mãos aplaudiam a jovem colega de profissão com uma graciosidade exemplar. Poucos minutos volvidos, a esperança nacional sofreu um segundo golpe de misericórdia quando “Central do Brasil” perdeu também o ambicionado Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Duas oportunidades verdadeiramente históricas desfizeram-se em pó no espaço de menos de uma hora de emissão televisiva. Na manhã seguinte, as capas dos jornais de norte a sul do Brasil estampavam uma expressão que passaria a integrar o léxico cultural da nação: o “Oscarbado” (um trocadilho com Óscar roubado) de Fernanda Montenegro. É uma mancha que o público recusa esquecer. Vinte e um anos depois do infame episódio, a conceituada atriz Glenn Close – que, curiosamente, detém o ingrato recorde de ter sido nomeada sete vezes para o prémio sem nunca ter levado a estatueta para casa – declarou abertamente numa entrevista bombástica que se recordava amargamente do ano em que Paltrow saiu vitoriosa. Close afirmou de forma peremptória que olhou para “aquela atriz incrível de Central do Brasil” e pensou de imediato que o resultado “pura e simplesmente não fazia qualquer sentido”. O Brasil inteiro acolheu estas palavras como a confirmação definitiva e oficial, oriunda do coração de Hollywood, de que uma injustiça grotesca havia sido perpetrada. Como se a ferida necessitasse de mais sal, em dois mil e vinte e três, Gwyneth Paltrow concedeu uma entrevista em formato de vídeo à prestigiada revista Vogue. Durante a reportagem, a sua valiosa estatueta de noventa e nove apareceu casualmente encostada ao chão de uma porta exterior no seu exuberante jardim. Quando o entrevistador teceu um elogio dizendo “Que belo Óscar!”, a atriz respondeu com um sorriso desdenhoso: “É o meu peso de porta”. A revolta na internet foi imediata e vulcânica. Contudo, é neste preciso ponto que a enorme estirpe moral de Fernanda Montenegro nos surpreende e desarma. A lenda brasileira não esboçou uma única queixa, não emitiu lamentos nem se vitimizou perante o desrespeito. Convidada para o programa “Conversa com Bial”, optou por responder à polémica com uma elegância que não se compra nem se ensaia: “Agradeço do fundo do coração à senhora Glenn Close por ter falado de mim. O simples facto de uma colega da dimensão colossal dela se recordar do meu trabalho é algo que eu considero, por si só, um prémio inestimável”. E como se a sua classe não fosse já suficientemente esmagadora, rematou a questão com uma afirmação que ninguém ousaria prever: “Eu, por exemplo, se tivesse o poder de voto, teria entregado o prémio à brilhante Cate Blanchett”. O povo brasileiro pode até nunca chegar a perdoar a Academia de Hollywood, mas a verdadeira protagonista desta epopeia recusa terminantemente a hipótese de reduzir a grandeza da sua vida a uma mera derrota num tapete vermelho.

Todavia, quem julgar que o episódio do Óscar constituiu a maior batalha enfrentada por Fernanda Montenegro, comete um erro de avaliação crasso. A sua trajetória está repleta de embates ainda mais ferozes. No dia dezasseis de março de dois mil e quinze, o horário nobre da televisão brasileira assistiu à estreia estrondosa da telenovela “Babilônia”. No ecrã, Fernanda Montenegro, então com os seus pujantes oitenta e cinco anos, e a sua eterna colega de palcos Natália Timberg, com oitenta e seis, deram vida a Teresa e Estela. Interpretavam um casal de mulheres apaixonadas que partilhavam a vida, os segredos e a mesma casa há mais de quarenta longos anos. Logo na primeira cena de intimidade do primeiro capítulo, as duas atrizes trocaram um delicado beijo nos lábios. Tratou-se de um gesto discreto, isento de qualquer erotismo exacerbado, desprovido da voracidade da juventude; era tão-somente um selinho carinhoso de quem se ama profundamente e conhece cada ruga do rosto do parceiro após quatro décadas de convivência. No entanto, o Brasil profundo, entranhado num conservadorismo anacrónico, não enxergou um beijo de amor; viu sim a detonação de uma bomba moral na sua sala de estar. Em meros três dias, a extremista Frente Parlamentar Evangélica emitiu uma virulenta nota oficial de repúdio contra a emissora. O polémico deputado Marco Feliciano instigou ativamente as massas a um boicote total contra a marca Natura, a principal patrocinadora do espaço comercial da novela. O inflamado senador Magno Malta recorreu às redes sociais para espalhar cartazes digitais que incitavam as famílias a desligarem os seus televisores. A consequência foi catastrófica: as audiências sofreram um autêntico colapso. “Babilônia”, que havia arrancado com uns sólidos trinta e três pontos, despenhou-se rapidamente para a casa dos vinte e cinco, registando, de forma humilhante, a pior abertura de uma novela do horário das nove em toda a história da Rede Globo. Em pânico perante os prejuízos e a fúria dos anunciantes, a estação televisiva recuou cobardemente. As diretrizes mudaram da noite para o dia: os selinhos afetuosos entre Teresa e Estela foram banidos do guião de forma sumária, tramas inteiras que abordavam temáticas fraturantes foram reescritas à pressa nos bastidores, e a novela acabou por ser impiedosamente mutilada e encurtada, passando dos originais cento e sessenta e um capítulos para apenas cento e quarenta e três. Mas há um pormenor fascinante e revelador nos bastidores desta polémica que poucos conhecem: o fatídico beijo não constava na ideia original dos guionistas. Foi a própria Fernanda Montenegro, num ato de enorme coragem artística, que se dirigiu ao conceituado autor Gilberto Braga e lhe exigiu que escrevesse a dita cena, argumentando que a relação necessitava dessa validação física para ser autêntica. E mesmo perante o caos que se instalou e a queda abrupta nas sondagens, ela nunca, em momento algum, manifestou o mais leve traço de arrependimento. Quando questionada repetidamente pela imprensa sobre o escândalo, a sua resposta foi um tratado de lucidez sociológica: “É assombroso notar que o público contemporâneo já aceita de bom grado e de braços abertos a figura do jovem homossexual nas tramas, mas verem duas velhinhas lésbicas, de oitenta e tantos anos, a trocarem um leve e inofensivo beijo na boca constituiu um escândalo maluco, inexplicável e profundamente assustador”. Na sua perspetiva aguçada, o problema fulcral que incendiou a revolta não residia apenas e só na questão da homossexualidade; o gatilho explosivo foi a mistura imperdoável da homossexualidade com a velhice, um tabu duplo que a sociedade se recusa liminarmente a encarar.

E se o inofensivo beijo funcionou como o tiro de partida para a guerra cultural, o que se sucedeu nos anos seguintes foi uma escalada de violência verbal incontrolável. Dezembro de dois mil e dezoito. Apenas algumas semanas após a polarizadora e tensa eleição do presidente Jair Bolsonaro, Fernanda Montenegro subiu ao palco do popular programa dominical “Domingão do Faustão” para receber uma homenagem. Sem papas na língua, proferiu um discurso inflamado e corajoso que, numa questão de minutos, se tornou viral em todas as plataformas digitais. Com a voz firme, declarou que os artistas não são seres corruptos, que os profissionais de palco não podem ser bodes expiatórios e responsabilizados pela gritante derrocada económica da nação, e sugeriu de forma incisiva que as autoridades e o povo deviam procurar os verdadeiros corruptos encastelados nos buracos do poder, deixando a cultura em paz para respirar. Nessa mesma noite épica, Fernanda elevou-se ao estatuto de símbolo máximo da resistência cultural no Brasil. Mas a coragem tem sempre um preço amargo e ela transformou-se no alvo número um para os ataques de ódio. Em dois mil e dezanove, a respeitada revista literária “Quatro Cinco Um” decidiu homenageá-la com uma capa provocatória e conceptual onde Fernanda surgia amarrada a uma estaca, encarnando o papel de uma bruxa nos tempos negros da Inquisição, rodeada por uma pilha imensa de livros em chamas numa clara alusão à censura. A resposta do sistema não se fez esperar. Roberto Alvim, que então ocupava o cargo de diretor da Funarte (Fundação Nacional de Artes), recorreu violentamente às suas redes sociais para atacar a atriz, adjetivando-a de forma repugnante como sendo “sórdida” e uma “desprezível mentirosa”. Para culminar o descalabro institucional, Alvim declarou uma “guerra irrevogável” contra a classe artística, um episódio deprimente onde se viu um alto funcionário do governo federal a dirigir ataques misóginos e odiosos contra um ícone intocável de noventa anos de idade. Depois deste ataque institucional, abriram-se as comportas do esgoto digital e começaram a jorrar as chamadas fake news. Frases incendiárias e opiniões radicais que Fernanda nunca emitiu na sua vida foram massivamente forjadas e partilhadas mais de oitenta mil vezes nas caixas de eco obscuras da internet. A enxurrada de insultos etaristas repulsivos tornou-se o pão nosso de cada dia, visando descredibilizá-la através do peso dos seus anos. Mas o ponto mais baixo da perversidade humana ainda estava por chegar: a disseminação coordenada de notícias inteiramente falsas que anunciavam de forma dramática a sua própria morte. Uma dessas absurdas e maldosas publicações exibia uma fotografia sua em tons fúnebres de preto e branco, encimada pela sombria frase “Descanse em paz”. A atrocidade gerou tamanha tração que angariou rapidamente mais de catorze mil gostos na rede. Mais tarde, confrontado, o autor covarde da macabra brincadeira justificou-se com o cínico argumento de que apenas queria dizer que ela estava a “dormir profundamente”. Era o reflexo espelhado de uma crueldade abismal: uma cidadã ilustre de noventa anos a ser declarada morta por pura, sádica e doentia diversão nos tribunais selvagens das redes sociais.

Contudo, enquanto o imenso e dividido Brasil se digladiava e esgrimia argumentos nos fóruns sobre a importância e as posições de Fernanda Montenegro, dentro das grossas paredes do seu apartamento milionário no bairro de Ipanema, uma solidão muitíssimo mais antiga, silenciada e profunda esperava pacientemente por ela todos os dias. O calendário apontava para o fatídico quatro de setembro de dois mil e oito. Eram precisamente duas e meia da tarde na morada da Avenida Vieira Souto. Foi ali, naquele instante exato, que o coração do ator Fernando Torres deixou de bater. Ele exalou o seu último suspiro no conforto acolhedor do seu próprio lar, tal como sempre havia desejado e exigido de forma veemente. Fernanda, num supremo ato de amor incondicional e respeito absoluto pela dignidade do companheiro, cumpriu a sua última vontade à risca: recusou submetê-lo à frieza clínica e impessoal dos hospitais. Optou por transformar a casa numa enfermaria improvisada, contratou enfermeiros para apoio permanente, e permaneceu fixamente ao lado da sua cama de mãos dadas, prestando-lhe conforto até à derradeira expiração. A causa oficial do óbito foi uma irreversível insuficiência respiratória grave. Ele contava oitenta anos de uma vida plena. O casal tinha cruzado os olhares de forma mágica em mil novecentos e cinquenta e subido ao altar em cinquenta e dois. Construíram de mãos dadas e suor partilhado uns impressionantes sessenta anos de dedicação exaustiva ao trabalho teatral e televisivo, alicerçados em cinquenta e seis anos inquebráveis de matrimónio. Tratava-se, no sentido mais lato e poético da palavra, de uma vida inteira dedicada em exclusividade um ao outro. O falecido Fernando, num exercício de profunda e comovente humildade, costumava referir-se a si próprio afirmando que a maior das sortes da sua vida tinha sido precisamente a oportunidade de poder ficar frequentemente atrás das câmaras escuras. O seu maior prémio, confessava com orgulho, era o privilégio de assistir à sua mulher representar de forma magistral, de bater-lhe palmas na primeira fila e de chorar emocionado com o talento dela. Perante os críticos impiedosos que insistiam na tese de que ele possuía envergadura para ter procurado mais glória e protagonismo individual para a sua própria carreira, a sua resposta mantinha-se imutável: fora uma escolha perfeitamente consciente, feliz e pacificada recolher-se naquele lugar de apoio para a deixar brilhar intensamente. E quanto a Fernanda, o sentimento de dependência emocional era avassalador e mútuo. Quando instada a falar sobre a ausência de Fernando, proferiu uma frase que ainda hoje arrepia quem a escuta: “Sem o meu Fernando, a minha vida pura e simplesmente não se cumpriria em plenitude”. A atriz nunca mais procurou o abraço, o consolo ou teve qualquer outro amor na sua vida. Quando esse pilar inabalável e amor fundacional se eclipsou da terra, ela viu-se subitamente entregue a um apartamento gigantesco, condenada a deambular sozinha por entre quadros de arte silenciosos, montanhas de livros acumuldados e dezenas de retratos fotográficos do marido que proliferam de forma afetuosa por todos os recantos e prateleiras da casa.

Fernanda não tem qualquer pudor em admitir que conversa ativamente e em voz alta com esses mesmos retratos, um detalhe íntimo que já fez questão de partilhar de forma descomplexada em entrevistas à comunicação social. “A estrutura desta casa carrega muitíssimo dele”, revelou com um brilho húmido no olhar, “seja na poltrona velha onde ele se sentava, seja nos livros antigos que tocava; existe toda uma memória palpável preservada aqui dentro. Sim, eu converso diariamente com o Fernando, mas tenham a certeza que não me transformei numa velhinha maluca ou senil”. Noutra ocasião carregada de rara emoção, refletiu abertamente sobre a natureza intensa e invulgar dessa união: “Foram sessenta árduos anos de trabalho partilhado. O mero e fortuito acaso ditou que os nossos olhares se cruzassem um dia, que os nossos corpos se quisessem e, a partir desse instante fulcral, nós fecharmo-nos de forma absoluta e quase hermética um no outro para enfrentar a dureza da vida”. É esta mesma lucidez aguçada e perspicaz que ela aplica quando convidada a dissertar sobre o inevitável peso da velhice. Sobre o processo de envelhecer, as suas palavras são de um realismo que fere pela crueza: “Na reta final da velhice, a solidão torna-se absolutamente inarredável. Quer queiramos quer não, a própria dinâmica da vida encarrega-se de ir empurrando o indivíduo implacavelmente para o abismo da solidão. À medida que a idade avança de forma inexorável, o corpo trai-nos: vais começando a ouvir bastante menos do que ouvias, a visão fica embaciada e turva, passas a levantar-te da cadeira com consideravelmente menos agilidade, e começas a sentir fisicamente as juntas e os ossos a secarem e a estalarem”. Há alguns anos, durante uma animada conversa em estúdio onde lhe perguntaram quantos dos seus verdadeiros e fiéis amigos contemporâneos ainda restavam vivos no mundo, a atriz emocionou a vasta plateia ao baixar o olhar, recolher a mão e começar dolorosamente a contá-los com enorme precisão, usando apenas e só os dedos curvos de uma única mão: “Natália Timberg… Laura Cardoso… e o Lima Duarte. De momento, estou unicamente a lembrar-me daqueles que se encontram na rigorosa faixa etária dos noventa aos noventa e cinco anos”. É o censo cruel e minucioso da sobrevivência. A própria filha, Fernanda Torres, num testemunho carregado de carinho filial e de uma certa dose de angústia perante as obsessões maternas, desabafou sobre a matriz psicológica da progenitora: “Eu cresci e fiz-me mulher a ouvir repetidamente da boca deles a mesma frase alarmista, garantindo-me que nós estávamos constantemente a um passo de cairmos na beira da ruína. É uma paranóia. Até aos dias de hoje, num dado momento, a mamãe vira-se para mim e solta a frase: ‘Olha que eu estou perfeitamente preparada e mentalizada para ir viver num lugar pequeno e humilde’. E eu, já exausta, respondo-lhe: ‘Mamãe, por amor de Deus, tu tens noventa e seis anos de vida! Tu já trabalhaste de forma sobre-humana e incansável ao longo de décadas… por favor, relaxa de uma vez por todas!'”. Mas para uma mulher forjada nas fornalhas de Campinho, o relaxamento é uma língua morta. No que toca ao tabu supremo da morte, a postura de Fernanda Montenegro afasta-se de qualquer misticismo consolador, optando por ser profundamente frontal e direta: “A consciência pesada e fria da iminência da morte é um facto constante, palpável, absolutamente diário, que me acompanha a cada milésimo de segundo”. No entanto, a genialidade desta mulher manifesta-se quando, ao descrever recentemente os complexos traços psicológicos da protagonista do seu mais recente projeto cinematográfico, “Vitória”, acaba, de forma fascinante e subliminar, por traçar um retrato perfeito e espelhado da sua própria alma, acrescentando numa ressalva vigorosa: “Não julguem que ela é uma mulher fragilizada, sofredora ou caída num registo melodramático barato; não, ela é, acima de tudo, uma mulher imensamente afetuosa e destemida”.

Afetuosa e destemida. São, de facto, adjetivos cirúrgicos, porque a história épica de Fernanda Montenegro, longe de terminar sufocada pela poeira da solidão, reservava um derradeiro e grandioso ato de glória. Vinte e seis longos anos após aquela noite inglória, frustrante e traumatizante em Los Angeles, o guião da vida real promoveu uma reviravolta que roça os limites do impossível e do místico. Outra “Fernanda” preparava-se para subir e deslumbrar naquele exato e mítico palco dourado. As coincidências que uniam as duas tramas são de tal forma arrepiantes que desafiam qualquer lógica racional: o mestre e realizador responsável era rigorosamente o mesmo brilhante Walter Salles; a disputada categoria mantinha-se a mesmíssima de Melhor Atriz principal; o intervalo temporal que separava as duas provações assinalava a passagem de exatos vinte e seis anos. A única e formidável diferença era que, desta feita, quem se encontrava corajosamente no crivo impiedoso do júri de Hollywood era o próprio sangue do seu sangue: a sua filha, Fernanda Torres. A consagração devia-se ao estrondoso impacto do aclamado filme “Ainda Estou Aqui”. A obra cinematográfica carrega nas suas entranhas uma dor nacional intensa, narrando a odisseia verídica e angustiante de uma corajosa mãe de família que perde de forma brutal o seu marido nas masmorras cruéis da ditadura militar brasileira e se vê forçada a erguer-se das cinzas para seguir em frente com a vida e criar os filhos. No grande ecrã, operando numa sinergia mágica e arrebatadora, mãe e filha partilham a responsabilidade tremenda de interpretar exatamente a mesma figura histórica e imponente, a ativista Eunice Paiva, retratando a sua resiliência em duas fases temporais distintas, mas profundamente interligadas, da sua tortuosa vida. O primeiro grande estrondo redentor na indústria norte-americana ocorreu no dia cinco de janeiro do glorioso ano de dois mil e vinte e cinco. Na deslumbrante cerimónia dos Globos de Ouro, os astros finalmente alinharam-se a favor do talento inegável sul-americano. Fernanda Torres superou as adversárias de peso e saiu vitoriosa. Com a conquista, fez tombar recordes históricos em série, cimentando o seu nome a ouro: converteu-se na primeiríssima atriz de nacionalidade brasileira, na pioneira representante de toda a América do Sul e na primeira voz da lusofonia global a arrebatar o almejado galardão naquela disputada categoria de drama. No momento apoteótico do seu discurso de aceitação, segurando firmemente o pesado troféu no palanque, Torres fixou o seu olhar penetrante na câmara que transmitia para milhões de lares e, com a voz embargada pela profunda emoção, proferiu as palavras que ecoaram como um feitiço libertador de justiça: “Vocês, na vasta audiência e neste salão, não têm a mais pálida ideia da magnitude e do significado imenso que este exato momento representa para mim. Ela esteve neste exato local há vinte e cinco anos… ela, a minha amada mãe”.

Fernanda Montenegro: “Tudo já é meio despedida para mim. Uma hora acaba” |  Cultura | EL PAÍS Brasil

Em perfeita sincronia com esse discurso, nos confins do Brasil, um pequeno vídeo caseiro propagou-se de forma viral, conquistando o coração das redes sociais. Nele, via-se nitidamente a figura matriarcal de Fernanda Montenegro, do alto dos seus noventa e cinco anos de majestade, sentada de forma contemplativa na sua habitual e gasta poltrona do silencioso apartamento em Ipanema. Apertava com fervor e devoção as pequenas contas de um terço católico nas mãos enrugadas. Quando o nome da filha ressoou no ecrã da televisão, vindo da distante América, as mãos soltaram a reza e ela ergueu subitamente os seus frágeis braços num movimento de puro e extático triunfo, celebrando de forma silenciosa mas arrebatadora. Logo a seguir, num gesto imperioso de matriarca, exigiu o mais absoluto e reverencial silêncio aos poucos presentes na vasta sala, ansiosa por não perder uma única e preciosa sílaba do emocionado discurso da sua sucessora de sangue. Nos dias que se seguiram, quando os ávidos jornalistas a interrogaram sobre o turbilhão de emoções que lhe trespassara a alma naquele instante fulcral, a sua resposta carregou um tom profético: “Eu tinha a mais absoluta e inabalável certeza de que a minha querida filha ia ganhar este tão disputado prémio. E se me perguntarem que insondável mistério sobrenatural é esse, confesso-vos que eu não o sei explicar… mas o que é um facto, é que eu sabia intimamente”. Ainda nesse auspicioso mês de janeiro, o reconhecimento definitivo de Hollywood formalizou-se, e Fernanda Torres viu o seu nome ser gloriosamente nomeado para o Óscar. Tornou-se, de pleno direito e com estrondo, na segunda mulher brasileira em toda a rica história do cinema a alcançar tamanha honra internacional — sucedendo, numa ironia poética e perfeita, à própria figura inspiradora da mãe. Tratou-se também de um feito extremamente raro e invulgar nos registos minuciosos da conservadora Academia Americana de Artes e Ciências Cinematográficas, assinalando o primeiro caso de um prodigioso duo de progenitora e descendente direta a merecerem nomeações como atrizes de relevo, facto que não ocorria desde os longínquos dias áureos da lenda Judy Garland e da sua magnética e talentosa filha Liza Minnelli. Reagindo com o peito a transbordar de um incomensurável e justificado orgulho familiar, Fernanda Montenegro tomou de assalto a sua conta oficial do Instagram e publicou uma sentida e vibrante mensagem de celebração que fez derramar lágrimas a milhares de seguidores fiéis: “Eu, a radiante Fernanda Montenegro, e o meu saudoso Fernando Torres, onde quer que o espírito bondoso dele se encontre nas vastidões celestes neste momento, estamos profundamente felizes, realizados e em verdadeiro estado de graça e de pura aleluia”. Uma vez mais, a frase poderosa e comovente — “onde quer que ele esteja” — fez questão de assegurar que o amado marido, que os havia deixado de luto em dois mil e oito, fosse irrevogavelmente incluído de forma espiritual na efusiva alegria familiar, permanecendo inquestionavelmente presente nas suas vidas, mesmo habitando a esfera cortante da ausência física.

O ansiado desfecho deste épico familiar aconteceu no dia dois de março de dois mil e vinte e cinco. Era a mítica Noite dos Óscares, que coincidia paradoxalmente no calendário com um efusivo e barulhento domingo gordo de Carnaval que varria e pintava de cores o Brasil. Fernanda Torres não arrebatou o prémio individual de Melhor Atriz; a cobiçada estatueta acabou por ser atribuída ao formidável talento ascendente de Mikey Madison. No entanto, o choro contido foi sol de pouca dura, porque a longa-metragem “Ainda Estou Aqui” trucidou a concorrência e levou para casa o imponente Óscar de Melhor Filme Internacional, selando um triunfo histórico: foi a primeiríssima vez nos longos anais da história do gigantesco e criativo país sul-americano que uma obra nacional logrou tal prodigioso e almejado feito nos palcos de Los Angeles. Nas artérias festivas e repletas do país, nos grandiosos e iluminados sambódromos onde o samba ecoava, e no seio apertado dos frenéticos e suados blocos de carnaval, o povo delirante em folia ergueu espontaneamente aos céus dos trópicos centenas de réplicas falsas de estatuetas douradas. Quando o realizador visionário Walter Salles subiu os degraus do grande palco para abraçar o tão merecido galardão que lhe era devido de forma tardia, não houve sequer uma réstia de dúvida de que a nação inteira se desfez num choro coletivo de alívio e orgulho contido. Para as mentes obcecadas de forma doentia com revanches pessoais e ajustes de contas pueris, a doce vingança poderia ter parecido e soado a algo incompleto e frustrante. A veterana e lendária mãe não venceu o prémio em noventa e nove; a talentosa e exímia filha não venceu a título individual no glorioso ano de dois mil e vinte e cinco. Mas a verdade libertadora é que o filme e a arte que ambas defendem suplantaram-se e venceram. Foi a própria Fernanda Torres que, com uma lucidez e clarividência desarmantes meses antes da cerimónia dos nervos, tinha proferido palavras premonitórias para refrear a sede vingativa das massas exaltadas do seu país: “O que eu quero evitar a todo o custo e não desejo minimamente que pensem, é na remota possibilidade de que se não formos galardoados vencedores diretos esta noite, o nosso projeto cinematográfico fracassou por completo na sua valiosa missão cultural”. E de facto, numa análise fria e rigorosa, nada naquele longo percurso brilhante redundou num estéril fracasso. Na verdade, o que de forma espantosa não fracassou foi a jornada monumental e interligada de duas gerações distintas de formidáveis e destemidas mulheres brasileiras, desafiando tabus, disputando com garra e engenho exatamente a mesma cobiçada e elitista honraria internacional, sob a batuta de mestre do exato e genial mesmo diretor. Durante esse vasto fosso temporal de vinte e seis longos anos que as distancia de forma inexorável, ambas viram fugir e perderam estoicamente o metal frio e impessoal da pequena estatueta feminina de atriz; mas, numa justiça cósmica inegável, as duas acabaram por arrebatar e ganhar algo de magnitude infinitamente maior e substancial para os corações lusófonos. E lá, no recato solitário e luxuoso de Ipanema, espremida entre os silêncios, a sabedoria acumulada de décadas, os pesados quadros artísticos que comprou e os nostálgicos retratos a preto e branco espalhados pela mobília, Fernanda Montenegro sabe perfeitamente e compreende na íntegra o impacto dessa asserção e peso vital e da sua grande vitória na cultura.

Hoje, sentada com a postura altiva que sempre a caracterizou ao longo da vida, Fernanda Montenegro ostenta a marca respeitável dos noventa e seis plenos e bem vividos anos de idade. Carrega aos ombros mais de oito pesadas e profícuas décadas ininterruptas de uma sólida e prolífica carreira profissional nas tábuas dos palcos e perante as lentes frias. No seu extenso e denso currículo de vida, alberga sem amarguras de maior a pesada recordação de um ansiado e famoso Óscar de ouro que teimou injustamente em não lhe ser entregue em mãos. Guarda também a estrondosa e peculiar memória de um simples mas audaz e afetuoso beijo cenográfico televisivo que, pela sua coragem pioneira, teve a capacidade surreal de ofender e escandalizar fortemente as mentes de toda uma conservadora nação. Suportou nos ombros cansados o peso deprimente de uma descabida e abjeta guerra de perseguição de ódio político desnecessária e feroz, a qual nunca requisitou nem procurou na sua vida de paz, lançada por correntes dogmáticas contra a liberdade das artes que amava de peito aberto e sempre jurou abnegadamente proteger. Despediu-se num leito doloroso, com estoicismo admirável de prantos, do homem e marido admirador eterno da primeira fila que se foi fisicamente do seu lado para o silêncio da terra; e no entardecer da velhice, comovida em pura aleluia e num ápice de orgulho e amor, assistiu com júbilo incontido, lágrimas no rosto e a alma cheia e vibrante a uma guerreira filha feita mulher, corajosa e determinada, que de forma poética e transcendental e abençoada subiu num esforço tremendo de talento inegável rigorosamente ao mesmíssimo afamado, sagrado, e distante pódio iluminado onde ela falhara outrora com enorme dor. Uma descendente que arrebatou perante o mundo vinte e seis anos mais tarde e devolveu num estrondo catártico trazendo de vez nas malas em forma de compensação cinematográfica de pátria global a glória redentora que a sua venerada e brilhante mãe nunca logrou por justiça receber das elites no seu passado.

E, com tudo isso e mesmo assim, perante a pesada cadência rotineira, ela acorda estoicamente todos os benditos amanheceres da sua vida de frente para o sol que reflete de forma espelhada na vastidão do vasto e infinito atlântico, perspetivando na sua mente racional e de forma desassombrada as verdades sobre a aproximação inquestionável da implacável morte; debate os receios surdos conversando abertamente com retratos amarelados esquecidos de presenças sem fôlego; abriga nos cantos escuros o medo sombrio paralisante da sua meninice de sofrer a fome aterradora da ruína financeira; enumera os lutos nos tristes dedos encarquilhados recordando com pranto os seus últimos e parcos amigos que da fina flor dos palcos ainda bravamente teimam em restar no plano dos vivos respirando de forma pesada na face desta terra cansada. Mas inegavelmente no final de cada dia frio a guerreira incansável de campinho continua persistente de forma aguerrida na vanguarda da sua obra e vida artística brilhante, teimosa nas luzes por instinto. Continua simplesmente e tão-só porque a notável, grandiosa e lendária intelectual chamada e perpetuada de Fernanda Montenegro compreendeu com notável clarividência basilar de fundação pátria e alma intelectual uma imensa e única verdade e sabedoria incontornável vital no cerne das nações, e que lastimavelmente muitíssima e triste pouca gente cega nas lutas frívolas ainda é incapaz de alcançar nas sombras escuras e medíocres de hoje que sufocam a paz social. Compreendeu para sempre que a nobre luz da sublime cultura não é minimamente e jamais será na sua essência o adorno leve das paredes e a vaidade que superficialmente enche ou enfeita o vazio de pálidos teatros num qualquer distante e desolado e pálido país do mapa abstrato da geografia; não, compreendeu que o dom precioso, o vigoroso labor dos e as obras magistrais no palco são pura e simplesmente e indiscutivelmente o único sopro pilar formidável que faz nascer no fogo purificador de um vasto espaço vazio, convertendo um país de forma sublime, na alma unida grandiosa força gigante a essência e peso intemporal inabalável numa verdadeira e grandiosa pátria que ampara na sua verdadeira essência unida as gentes. Sem ela — recorda de forma severa nas palavras e adverte nos seus célebres grandes ditames morais os vindouros pálidos tempos —, sobram desoladoramente nas margens o deserto sem história e apenas se restringe o seco traçado burocrático de mudas, duras fronteiras e marcos estéreis; estendem-se infindavelmente e aborrecidamente territórios ermos de mentes mudas desenhados artificialmente através de rabiscos desalmados e inexpressivas, gélidas linhas divisórias num qualquer papel de um vago mapa mundi global oco e mudo esquecido de significado; mas, com ela nas fileiras — brada orgulhosa do legado —, ganha-se de volta ressuscitando em voz ardente e existe eternamente e palpita forte em uníssono de uma força viva nos milhares de peitos nas ruelas na praça do coração nos milhões de corações, manifestando de vez na forma soberana nas luzes erguidas algo de formidável, perene, vivo, mágico e imensurável que definitivamente justifica e vale amplamente de vez no orgulho que merece de lutar no sacrifício, sofrer com afinco inabalável e valer no fundo da alma eternamente a abnegada e dura e brava pena lutar nas trincheiras de proteger até ao suspiro final na pena merecida defender num esforço estoico desmedido valer a honra para sempre da honra abnegada e merecida de vez valer de defender até à própria vida do fim a união cultural. Ela, num passado agora nebuloso e perdido nas dobras do século, numa célebre, profunda e formidável citação solene perante os presentes afirmou outrora do alto da sua gigante vivência experiente a máxima eterna inquestionável a de que: “Sem possuírem ao de leve o estofo valioso essencial formador da livre de amarras a nobre base cultural da raiz da livre pujante e da sagrada essência forte e unificadora da arte cultural a cimentar valores de amarras intelectuais, meus amados senhores do país, a vossa nação, vocês infelizes do vosso estado de coisas por aí vocês perdem rumo pois infelizmente no frio das contabilidades sem alma vocês têm à vista cega meramente de papel a gélida fronteira fria e distante do limiar do fim tem o estéril do país; mas de forma perentória triste e fria no âmago oco amargo sem ela da vossa vasta casa oca de espírito jamais alcançarão de a pátria sentir na verdadeira pátria e essência na ausência não tem de facto não ostentam minimamente na vida nem de longe no calor a nobre grandiosa alma unificadora gigante de uma pujante e grandiosa alma e que funde a digna figura amada de uma autêntica imponente uma imortal forte unida de luz Nação cultural”. Arlete pura humilde modesta ingénua menina das de pé descalço nas poeiras secas de calores longínquos filha humilde pacata descendente no berço trabalhador, a brava pobre menina da infância triste mas lutadora a orgulhosa Pinheiro Esteves da digna de origem parca do suado ramo humilde Silva oriunda nas margens filhas diretas e queridas afilhadas nas amargas dificuldades filhas operárias e rebento fruto das duras da dura calada nobre dignidade de filha do rude modesto trabalhador suado mecânico, a corajosa miúda que nascera do zero oriunda nas escuras franjas oriunda esquecida originária modesta e simples nascida da sorte pobre e da numa escura numa pequena recôndita sombria em poeirenta esquecida estreita marginal sombria e apagada da obscura rua numa modesta pequena num estreito canto esquecido da sombria escondida no pó numa ruela de uma poeirenta pacata viela do longínquo esquecido operário nos becos amargos remota via modesta viela abafada dos do apagado humilde arrabalde pobre dos e distante escondido de do poeirento calor no desolador operário duro subúrbio cinzento calado de operários longe dos focos abafados da imensa da vasta imensa vibrante cosmopolita frenética caótica distante imponente do grande sol radiante deslumbrante na costa sol radiante e frenética quente grandiosa costa quente metrópole pujante deslumbrante deslumbrante vibrante metrópole caótica grande Rio de calor sufocante na maravilha tropical Janeiro, que outrora ousada destemida ingénua sonhadora valente arrojada com genialidade nas rádios no estúdio forjou e de forma e audácia de coragem criou e inventou desenhou e nas no ar no talento puro de inventou magicou delineou e forjou de forma com audácia brilhante magistral brilhantemente genial audácia com firme de forma corajosa sonhadora a formidável arrojada e inventou forjou no destino nos sonhos atreveu se de criativa forma audaz valente inventou inventou na e inventou genial inventou genial mente inventou magistral concebeu e forjou genialidade na a partir da pura de da para de genial de si valente genial para das nas da forjou e sonhou para em audaz se mesma mesma um para si orgulhosa a para corajosa forjou forjou se a o valente si audaz genial mente o da a arrojada inventou genial valente inventou se da valente a para forjou se formidável e si a mesma inventou audaz de arrojada forjou inventou valente para o o e mesma para genial mesma da mesma forjou para a e mesma se um e a o se mesma si forjou mesma mesma para inventou audaz e o audaz forjou forjou da de forjou para se a se si forjou mesma para e a arrojada mesma se forjou genial um grandioso altivo resplandecente nobre e imponente o resplandecente marcante forte inesquecível e imponente marcante gigante o marcante e inesquecível de brilhante inesquecível do forte sonante e forte glorioso altivo forte e e imponente altivo glorioso de resplandecente glorioso sonante de um do forte forte solene sonante imponente brilhante forte sonante forte inesquecível e sonante nobre imponente grandioso forte sonante gigante inesquecível nome que de tão magistral deslumbrante altivo glorioso altivo forte magistral épico glorioso de magistral épico que no e grandioso imponente que e que que na altivo e na parecia que mágico altivo o glorioso na parecia altivo o glorioso e a na que que parecia de o a grandioso mágico épico o épico parecia resplandecer o na altivo que parecia pertencer parecia imponente que parecia que resplandecer magistral parecia o grandioso que parecia imponente parecia grandioso resplandecer que mágico épico parecia que a o mágico grandioso parecia que parecia de facto mágico vir oriundo majestoso resplandecer grandioso e resplandecer mágico o parecia de mágico majestoso resplandecer a resplandecer mágico parecia o o a parecia majestoso de vir majestoso majestoso o a de a resplandecer majestoso mágico o mágico a resplandecer de de a a vir outro deslumbrante intocável esplêndido irreal faustoso inacessível inalcançável inalcançável inacessível paralelo cintilante esplêndido brilhante irreal ofuscante e o majestoso brilhante de cintilante esplêndido intocável paralelo glorioso de esplêndido mágico deslumbrante esplêndido grandioso grandioso esplêndido inalcançável intocável cintilante faustoso irreal de faustoso grandioso outro mágico de de deslumbrante outro deslumbrante irreal cintilante inalcançável esplêndido brilhante e faustoso brilhante de de inalcançável outro outro outro e deslumbrante outro deslumbrante irreal deslumbrante inalcançável de outro esplêndido grandioso cintilante outro mundo nobre faustoso mundo e no e mundo faustoso no mundo e de intocável majestoso do inalcançável e no faustoso intocável de faustoso inalcançável mundo e grandioso glorioso inalcançável de de mundo e grandioso faustoso de e no e nobre e deslumbrante faustoso mágico faustoso inalcançável mundo o mágico majestoso outro mundo nobre e no mundo imponente majestoso mundo majestoso majestoso mundo nobre glorioso outro e faustoso mundo intocável inalcançável de de mundo nobre mágico faustoso imponente intocável de e grandioso mundo mundo e no de majestoso e majestoso inalcançável mundo intocável mundo faustoso mundo de majestoso majestoso mundo mundo inalcançável mágico faustoso outro e e depois gloriosamente corajosamente maravilhosamente e depois de forma e e com mestria gloriosamente depois e maravilhosamente e magistralmente heroicamente corajosamente gloriosamente bravamente corajosamente e depois com resiliência de forma maravilhosamente heroicamente heroicamente com heroicamente maravilhosamente magistralmente de com e magistralmente depois bravamente gloriosamente bravamente e e depois heroicamente corajosamente de com e depois maravilhosamente corajosamente gloriosamente corajosamente maravilhosamente heroicamente heroicamente maravilhosamente corajosamente e heroicamente maravilhosamente depois e magistralmente de heroicamente de gloriosamente maravilhosamente e heroicamente corajosamente maravilhosamente heroicamente de maravilhosamente corajosamente de corajosamente gloriosamente e depois gloriosamente e e maravilhosamente corajosamente heroicamente e magistralmente heroicamente maravilhosamente depois maravilhosamente corajosamente heroicamente corajosamente inventou com a própria vida, a arte, as perdas e com a sua força avassaladora de mulher guerreira, uma majestosa, inabalável, poderosa, intemporal e imponente razão gloriosa de matriz profunda de alicerce pátrio uma vital e imensa e formidável razão suprema e brilhante para que esse mesmíssimo vasto mundo mágico de luz eterna que outrora apenas sonhara e onde a cultura prevalece orgulhosamente e brilha nos palcos possa para todo o sempre de pé e de forma intocável majestosa possa eternamente existir, brilhar nas luzes resistir firme, e inspirar eternamente com luz de chama viva todas e as de de força de de que possa inspirar orgulhosamente brilhar e eternamente de possa de que inspirar e de e possa de e possa de brilhar de de que as possa e orgulhosamente e possa de possa de de que possa que de e que e possa de e de que de de e de que possa orgulhosamente as e de possa e e brilhar e que de e de e de as que orgulhosamente as que possa as e de possa orgulhosamente e de orgulhosamente e e de de orgulhosamente que as possa que de de as brilhar de de que orgulhosamente de de que as orgulhosamente que brilhar orgulhosamente brilhar de as que brilhar que as brilhar orgulhosamente que de de brilhar orgulhosamente as e brilhar brilhar orgulhosamente as e as e de e orgulhosamente e que as futuras e vindouras deslumbrantes imortais orgulhosas e futuras resplandecentes imortais e vibrantes imortais vindouras orgulhosas orgulhosas resplandecentes deslumbrantes vibrantes vibrantes orgulhosas imortais vibrantes e imortais deslumbrantes e orgulhosas futuras resplandecentes vibrantes deslumbrantes vindouras imortais imortais e vibrantes resplandecentes deslumbrantes imortais imortais deslumbrantes resplandecentes futuras e vindouras orgulhosas vibrantes resplandecentes imortais deslumbrantes orgulhosas resplandecentes imortais e resplandecentes orgulhosas e imortais resplandecentes e imortais vindouras resplandecentes resplandecentes vibrantes futuras deslumbrantes resplandecentes futuras orgulhosas resplandecentes orgulhosas imortais vibrantes orgulhosas resplandecentes vindouras imortais resplandecentes gerações vindouras de toda uma de de de gerações de gerações inteiras vindouras toda da de toda gerações gerações inteiras toda gerações inteiras de de gerações de gerações de da de gerações gerações da toda de toda de de de toda gerações de de toda gerações gerações de inteiras de da de gerações gerações inteiras de da toda toda de toda de toda inteiras de da gerações de inteiras de inteiras da de da de toda toda de de gerações de de toda da de inteiras da de nação orgulhosa inteira!

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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