Por Trás do Sorriso do Tremendão: As Tragédias Ocultas que o Palco Escondeu de Erasmo Carlos

O Tremendão passou sessenta anos da sua vida a subir aos palcos. Foram mais de seiscentas canções compostas, milhões de discos vendidos e o sorriso mais largo e carismático de toda a Jovem Guarda. Para o público, Erasmo Carlos era a personificação da juventude eterna, do rock and roll, da alegria contagiante e da rebeldia inocente. No entanto, todo o palco possui uma cortina e, atrás da cortina brilhante do Tremendão, existia uma narrativa densa, marcada por perdas brutais, lutos insuportáveis e dores que ele nunca permitiu que os seus fãs vissem. Aquele que compôs as canções mais alegres e apaixonadas do Brasil era, na verdade, um homem que carregava cicatrizes profundas.

Toda a gente conhece o Tremendão. O eterno parceiro do “Rei” Roberto Carlos, o homem que sempre pareceu conformar-se com o segundo plano, sem nunca reclamar o protagonismo absoluto. Contudo, o Tremendão era, até certo ponto, uma armadura, uma personagem brilhantemente construída. O homem de carne e osso chamava-se Erasmo Esteves. E Erasmo Esteves suportou tragédias que destruiriam o espírito de qualquer ser humano comum. Para compreendermos a magnitude da força deste homem e a forma como conseguiu ocultar tantas lágrimas atrás de tantos sorrisos, temos de recuar no tempo, até ao bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro dos anos quarenta, e conhecer um menino que cresceu assombrado por uma ausência profunda: a do próprio pai.

Erasmo Esteves nasceu no dia 5 de junho de 1941, numa época em que o preconceito e o conservadorismo ditavam as regras sociais de forma implacável. A sua mãe, Maria Diva, era uma mulher baiana, de Salvador, que viajou para o Rio de Janeiro de navio. Fez a travessia grávida, completamente sozinha e sem marido. O pai da criança recusou-se a assumir a gravidez. Para proteger o filho do estigma terrível que recaía sobre as mães solteiras naquele Brasil dos anos quarenta, Maria Diva inventou uma mentira piedosa: dizia a todos que era viúva. Inventou uma morte para justificar e esconder uma ausência. Na certidão de nascimento do pequeno Erasmo, o espaço reservado ao nome do pai era um vazio literal, um reflexo do buraco emocional que se instalou na casa e na alma do rapaz. Maria Diva desdobrou-se para fazer todos os papéis. Trabalhava arduamente como assistente de enfermagem, criando o filho numa pobreza modesta, na Rua do Matoso. Não havia miséria absoluta, mas também não havia folgas nem luxos.

Erasmo era um menino extremamente tímido, gentil, mas com uma carência afetiva que só ele viria a compreender décadas mais tarde. Quando a figura paterna não existe, o vazio não fica confinado ao papel da certidão; enraíza-se no peito. E foi na música que o jovem Erasmo encontrou o colo e a identidade que lhe faltavam em casa. Na adolescência, juntou-se à mítica “Turma da Matoso”, um grupo de rapazes de rua fascinados por aquele fenómeno emergente chamado rock and roll. Passavam as madrugadas a fazer serenatas nas calçadas da Tijuca. Foi nesse ambiente fervilhante que conheceu um vizinho imponente, dono de um vozeirão inconfundível, que lhe ensinou a segurar os primeiros acordes num violão. O nome desse vizinho era Sebastião Rodrigues Maia, que o país viria a venerar sob o nome de Tim Maia.

Estes rapazes andavam sempre juntos, sonhavam e respiravam música. Mas o ponto de viragem definitivo não surgiu de uma banda, surgiu de um acaso à porta de casa. Certo dia, bateram à porta de Erasmo. Um amigo comum trazia consigo um rapaz que precisava desesperadamente da letra de “Hound Dog”, de Elvis Presley. Erasmo, que colecionava letras num caderno, entregou o papel e ficou a observar enquanto o desconhecido afinava a guitarra e começava a cantar ali mesmo, na sua sala. Esse rapaz era Roberto Carlos. Naquele instante fortuito, iniciou-se uma das parcerias mais prolíficas e lendárias da história da música mundial, resultando em mais de seiscentas composições. Mais importante ainda, nasceu uma irmandade inquebrável, um laço tão forte que resistiria a todas as intempéries que o destino lhes reservava.

Foi Roberto quem puxou Erasmo para os bastidores da televisão, inicialmente como um simples “faz-tudo” no programa de Carlos Imperial. Erasmo não recebia salário. Carregava cenários, comprava sanduíches, segurava as portas dos camarins. Mas absorvia tudo: o tempo das câmaras, o ritmo da plateia, a magia da comunicação. Vivia na sombra até ao dia em que Roberto faltou a um compromisso e Erasmo foi empurrado para o palco para o substituir. E aqui reside um pormenor psicológico fascinante e revelador: o seu nome não era Carlos. Nasceu Erasmo Esteves, mas decidiu adotar o “Carlos” como nome artístico em homenagem a Roberto Carlos e a Carlos Imperial. O menino que cresceu sem o apelido do pai biológico e que viu a mãe lutar sozinha, apagou o seu apelido de sangue e construiu a sua identidade a partir dos dois homens que o guiaram no mundo artístico. Como se a sua verdadeira família não fosse a biológica, mas sim a família gerada pelos palcos.

Em 1965, a televisão brasileira foi sacudida pelo fenómeno da Jovem Guarda, liderada por Roberto, Erasmo e Wanderléa. Em poucos meses, tornaram-se ídolos absolutos. A Jovem Guarda não era apenas música; era moda, gíria, atitude. O rapaz que comprava sanduíches era agora o “Tremendão”. Compôs hinos imortais, embora muitos pensassem que o mérito era exclusivo de Roberto. Erasmo nunca se importou, nunca reclamou. Considerava-se, antes de tudo, um criador. Vivia uma vida de estrela rock, afirmando ter conhecido mil mulheres e comportando-se como se a vida fosse uma eterna festa. Até que conheceu a mulher que o faria parar.

Erasmo Carlos, o 'Tremendão', fará show de graça em praça de Batatais -  Estrela da Jovem Guarda é uma das atrações do Festival de MPB 2018

O seu nome era Sandra Sayonara, uma paisagista deslumbrante e presença magnética no Rio de Janeiro, conhecida pelo país inteiro como Narinha. Casaram-se na segunda metade da década de setenta. De repente, o eterno boémio transformou-se num homem de família, pai de três rapazes: Gugu, Gil e Leonardo. Narinha não era apenas uma esposa; era musa e parceira criativa. Canções belíssimas, como “Mulher (Sexo Frágil)”, foram escritas como um retrato íntimo da força e resiliência de Narinha, a mulher que organizava a vida de um marido que dependia dela muito mais do que a sua imagem pública deixava transparecer. Mas por trás desta fachada idílica, morava um desespero silencioso.

A 4 de junho de 1984, uma tragédia abalou a casa da família. A arma pessoal de Erasmo estava guardada num armário. Um tiro ecoou. A bala atingiu Narinha, perfurando-lhe o estômago, o baço, o pulmão e o intestino. Erasmo correu e deparou-se com a cena mais macabra da sua vida. Narinha sobreviveu por um milagre e ambos sustentaram a versão de que se tratara de um acidente doméstico. O Brasil aceitou a história e a vida pareceu seguir o seu curso. Porém, relatórios médicos e investigações posteriores revelariam a verdade angustiante: não foi um acidente, mas sim uma tentativa desesperada de Narinha de pôr fim à própria vida. E não seria a última vez.

Apesar de continuarem juntos durante mais alguns anos, as fraturas emocionais nunca sararam. Separaram-se em 1990. E no dia 26 de dezembro de 1995, apenas um dia a seguir ao Natal, Narinha, que vivia sozinha, foi encontrada sem vida na sua casa, aos 49 anos. A explicação inicial apontava para um mal súbito. No entanto, semanas depois, a autópsia revelou o horror incontornável: envenenamento por cianeto. Aquele tiro no armário, em 1984, tinha sido a primeira tentativa; o cianeto foi o desfecho trágico e definitivo de uma depressão profunda que o público desconhecia. Erasmo Carlos desmoronou. Mergulhou no alcoolismo, isolou-se do mundo e da música durante grande parte da década de noventa. O sorriso largo desapareceu, dando lugar a uma dor insuportável.

Mas o palco continuava a cobrar-lhe um preço elevadíssimo. Antes mesmo da morte de Narinha, em 1985, na primeira edição do Rock in Rio, Erasmo foi inexplicavelmente escalado para atuar na mesma noite de bandas de heavy metal como os Iron Maiden. Ao subir ao palco, foi brutalmente vaiado por uma plateia impaciente e sectária. O palco, que sempre fora o seu santuário, tornou-se o palco da sua maior humilhação pública. Mais tarde, em 1992, a sua música “Homem de Rua” foi escolhida como banda sonora da novela “De Corpo e Alma”. Tornou-se o tema do personagem interpretado por Guilherme de Pádua. Quando o ator cometeu o bárbaro assassinato da jovem atriz Daniella Perez, a canção ficou para sempre manchada de sangue na memória do país. Num ato de enorme respeito e empatia, sem convocar conferências de imprensa nem procurar mediatismo, Erasmo tomou uma decisão drástica: nunca mais voltou a cantar “Homem de Rua” em toda a sua vida.

Com o passar dos anos, e após recuperar a sobriedade, Erasmo tentou reconstruir-se. Contudo, em 2004, perdeu a mãe, a mulher corajosa que o criou do nada. E em maio de 2014, quando parecia finalmente viver uma fase de consagração e estabilidade profissional, sofrendo ainda a euforia de ter ganho um Grammy Latino pelo álbum “Gigante Gentil”, a tragédia bateu à sua porta da forma mais sádica possível. O seu filho do meio, Alexandre Pessoal, de 40 anos, sofreu um gravíssimo acidente de mota. Durante oito dias agonizantes, Alexandre lutou entre a vida e a morte num coma induzido.

Durante esses mesmos oito dias de puro desespero paternal, o que fez o Tremendão? Subiu ao palco. Cumpriu todos os seus espetáculos. Enquanto o seu filho lutava para respirar num hospital, Erasmo sorria e cantava para milhares de fãs. Quando questionado sobre como era capaz de suportar tamanho suplício, a resposta foi dilacerante: “O chão não pode parar. Eu e os meus filhos trabalhamos com música e temos um pacto: o que acontece com um não pode impedir os outros de seguir em frente.” Alexandre faleceu, e Erasmo engoliu o pranto, regressando ao palco com a alma em destroços.

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Nos últimos anos de vida, o corpo também começou a ceder, trazendo consigo o cancro e outras enfermidades. No entanto, ele encontrou um porto seguro no amor de Fernanda Passos, com quem se casou, recuperando alguma da paz que a vida lhe tinha roubado. Em novembro de 2022, pouco tempo depois de vencer mais um Grammy Latino, o coração do Gigante Gentil parou de bater, aos 81 anos. O homem que tinha começado a sua jornada nos estúdios primitivos da TV Tupi despediu-se do mundo.

O epílogo desta história de resiliência suprema ocorreu em 2024. A família e a gravadora lançaram um álbum póstumo, composto por gravações inéditas e rascunhos deixados por Erasmo. Esse álbum, magnificamente premiado com outro Grammy Latino, carregava um simbolismo arrebatador. O título do disco não era Erasmo Carlos. O título era “Erasmo Esteves”. O nome com o qual nasceu e que suprimira em prol do estrelato. Era como se, sessenta anos depois, a morte lhe tivesse devolvido a verdadeira identidade que o palco lhe havia pedido emprestada. O Tremendão, o ídolo de massas, pertencia para sempre à história do Brasil. Mas a dor, as lágrimas ocultas e a superação avassaladora pertenciam, única e exclusivamente, a Erasmo Esteves. E é esse o homem extraordinário que jamais deverá ser esquecido.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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